18 julho 2007

#6

- Olá. Vim o mais rápido que pude, parecias tão alarmada ao telefone…?
Senta-se. Para o empregado de mesa que se aproxima e espera uma ordem e um aceno de cabeça:
- Um café. E traga um cinzeiro, se fizer favor. - Volta-se, pronto e atento. - E então? Conta-me, estás bem?
- Sim, estou.
- Então o que é?
- Tínhamos de falar. Há algo que precisas de saber, tenho que to contar.
- Passou-se alguma coisa no trabalho?
- Não, nada disso.
- Então?
Interrompidos pelo cinzeiro, que é pousado na mesa. Acende o cigarro, subtilmente deliciado. Mais uma baforada, e continua:
- Que se passa, afinal?
- Vou ter um filho.
- O quê?!? – Uma tosse espontânea: engasgou-se no fumo. – Falas a sério?!?
- Vou ter um filho. Uma filha, para dizer a verdade. – As palavras acabadas num sorriso envergonhado e feliz.
- Uma filha? Mas quando é que..? Como…? E não me dizias nada? Mas isso é óptimo! E eu aqui a fumar ao pé de ti! – Agita a mão por entre as nuvens de fumo, tentando afastá-las o mais rápido possível; apaga decidida e energeticamente o cigarro. – Estou estupefacto, vais ser mãe! Como te sentes?
- Candidamente. – O sorriso decide-se.
- Óptimo, óptimo. Sabes que sempre soube que ias ter um filho antes de mim. Raios, nem sequer sei se alguma vez os terei! - E dá uma gargalhada.
O café chega. Agradece, aquecido pela nova surpreendente. Despeja o conteúdo da saqueta do açúcar no café e mexe-o pausadamente: um ritual. Continua:
- Vais dar uma excelente mãe! Fico feliz por ti! Mas diz-me lá: quem é o pai? Conheço-o?
- Sei que vai parecer estranho e confuso dizer-to, mas…o pai… és tu.
- O quê?!? – O café que quase se verte com o reflexo involuntário das suas mãos, como que procurassem algo a agarrar. – Estás doida?!? Quase que partia a chávena por tua causa!
- És o pai, já te disse. – O tom sério não lhe agradou.
- Estás a querer gozar com a minha cara? Vê lá, não brinques com estas coisas. Quem é o pai? Diz-me, eu mantenho o segredo, sou eu, o teu melhor amigo, com quem estás a falar!
- És o pai, sabes bem disso. Sempre o deverias ter sabido. – O tom sério mantém-se.
Esta conversa começava a desagradar-lhe profundamente. Nem parecia dela. Que piada tão patética! E, no entanto, olhava para ela e não via um riso escondido nos olhos, apenas… um pedido.
- Mas…Falas-me a sério?
- Sim. Preciso de ti. Por favor, não me vires costas. Não agora.
As palavras a atropelarem-se, a quererem sair mais depressa do que o possível, num só fôlego:
– Mas explica-me lá como posso ser eu o pai se nunca te toquei sequer! – Tenta recostar-se na cadeira, dar um ar de desinteresse e certeza, mas esta parece-lhe desconfortável em qualquer ângulo possível. – Vá, sou todo ouvidos!
- Há quantos anos nos conhecemos?
- Muitos.
- Bastantes. Sempre pudemos contar um com o outro.
- Não para ser pai de ninguém!
Sem parecer sequer que ouviu tal interjeição, continua:
- Vivo sozinha há tempo demais. Não tenho ninguém, não conto com a família. Não quero ser mais um trintona acabada e sozinha! Mas QUERO passar por isto, quero ter esta criança, quero dar este passo na minha vida, PRECISO de dar este passo na minha vida: algo de tão belo e único. Só tu me podes amparar. Preciso que me ajudes. És o pai, não o percebes?
- Mas…Isto…isto é tudo muito súbito, apanhas-me de surpresa…Eu não tenho responsabilidade nenhuma nisto…Nem sequer posses para tal, quanto mais… Não! Não, não, esta história não pega! Ah, ah, muito engraçada! Já te divertiste hoje às minhas custas. Quase que acreditei, parabéns. Agora pára com isso, que me dá a volta ao estômago.
- Por favor, pára… - Um choro miudinho que teima em surgir.
- Não pode ser verdade, o que me pedes… Isto só a mim, só a mim… Mas e o VERDADEIRO pai?
- Não interessa, nem quero saber. Só tu podes ser o pai desta criança, és tu que importas. És maravilhoso, sempre foste. E sempre fomos tão próximos um do outro, sempre contámos um com o outro nas nossas piores alturas, quando muita gente se descartou de situações. Se há alguém que tem que ser o pai da minha criança, só podes ser tu.
- Mas isso não é assim tão fácil: chegares aqui e pedires-me para ser pai de um minuto para o outro! Já pensaste sequer no que as pessoas dirão?
- Sempre disseram que acabaríamos juntos.
“1-0.”
- Já pensaste nos gastos?
- A tua vida é bastante folgada, e também a minha, adaptar-nos-emos bem.
“2-0.”
- Já pensaste nos encargos, no tempo, na atenção? Na responsabilidade? Eu nem as minhas camisas passo a ferro! – e levou as mãos à cabeça: o choque que era aperceber-se de si próprio!
- Nada que os dois juntos não consigamos lidar. Não estamos a ficar mais novos, e eu sei que não vais querer levar a vida que levas para sempre: chegares a uma casa semivazia; nem sequer uma planta lá tens para lhe dar vida, por Deus! Não teres aquilo a que possas chamar de lar. Ires a casa no Natal e teres que suportar as opiniões e as piadinhas da família, que, para além de desgastantes, acabam por ser certas. Vais acabar sem nada, e eu sei que não é isso que queres.
“3-0.”
Era impossível contra-argumentar, ela tinha toda a razão. À medida que o tempo passava, sentia-se cada vez mais vazio, e, se não fosse a sua melhor-amiga-que-agora-me-pede-o-mundo, há muito que não teria vida própria. Os dias cada vez lhe custavam mais a passar, faltavam-lhe algo.
- Tu sabes que isto é possível. Tu sempre disseste que querias ser pai um dia. Pois hoje é o dia. Tu sabes que isto é possível.
Silêncio.
- Achas mesmo possível?
- Sei-o. Sinto-o. – Sorri. - Sinto-o mesmo aqui, na minha barriga.
- Incrível…A minha vida…
- A NOSSA vida.
Troca de olhares: comprometida, sincera. Acalma, e decide-se.
- Parece que vou ser pai… – Um sorriso. – Vou ser pai…



Inspirado num sonho macabro que tive há tempos.

14 julho 2007

Passagem Por Um Parque



onde fiz um amigo :)

11 julho 2007

I Am Jack's Broken Expectations




"I felt like putting a bullet between the eyes of every Panda that wouldn't screw to save its species.

I wanted to open the dump valves on oil tankers and smother all the French beaches I'd never see.

I felt like destroying something beautiful."

04 julho 2007

Choices

Choices,
Hands tied with ghosts, one last ride
For the fall
And we,
Consumed flames in a dried ocean
Called life
Gladly,
Throw ourselves to the abysm and thank
The lack of sight
Thank You,
Goodbye

POP LEGGED



Parcerias destas nunca falham :) Obrigado, A.C.!!!

03 julho 2007

Anita Canita ROCKS!!!



Obrigado Anita! Continua, a tua arte prende,seduz; é uma óptima fonte de inspiração!

19 junho 2007

Percussão Nas Ruas

Drums on buckets as his three daughters aged seven, six, and four dance. His wife Sonia is always on hand. Wright has been performing on the streets since he was five years old.



"Sometimes old people come past and cover up their ears because it's pretty loud. But except for that, all the shows are good, all the crowds are good. For me, it's relaxing. It lets me do what I love to do. Keeps me out of trouble."

11 junho 2007

06 junho 2007

Ladytron - Destroy Everything You Touch

Poesia em formato electroclash.

01 junho 2007

#5



Trabalhas no quiosque amarelo.
Começo o meu dia contigo; ultimamente dou comigo a começá-lo por ti.
Acendo-te.

Inalas o fumo do cigarro que acendes todas as manhãs.
Sorves o teu café e pousas a chávena na tua mesa de madeira gasta pelo sol; e recostas-te a ver o dia e a rua a despertarem.
Exalas o fumo o mais lentamente possível, como se o tentasses parar no tempo – como se tentasses parar o próprio tempo. Todas as manhãs.

Vejo-te da minha varanda. Olhas-me, mas não me vês: não vês quem sou, quem poderia ser para ti, o que poderia fazer por nós.
Inalo-te.

Olhas-me de quando a quando da tua varanda, mas não me vês; algo te turva o olhar e te retira deste mundo.
Nunca nos conhecemos ou sequer falámos; nunca vieste cá sequer para comprar um maço de cigarros. Talvez me dissesses bom dia, ouviria a tua voz então; descobriria o teu nome, José, António, Eduardo, tanto faz, isso não é realmente importante, já te conheço: sei quem realmente és. Para ti não existo, mas já me pertences há muito tempo.

Se agora descesse as escadas, voasse pela rua de calçada, e estacasse perante ti: ver-me-ias então? Verias quem sou? Dir-me-ias o que tanto gostava de ouvir?
Existes, sem saberes que és minha.
Intoxicas-me.

Acabas o teu cigarro, decides-te a entrar em casa.

Tenho que ir – a vida não se constrói só de sonhos – mas não parto sem te ver uma última vez hoje. Ver-te através da janela é ver uma ideia de ti.
Apago-te.

Vês uma última vez para a rua a ganhar vida; olhas-me e premunes-me de ti para o resto do dia. Cá estarei amanhã, e depois de amanhã: até ao dia em que me vejas da tua varanda e desças as escadas do teu prédio e voes pela rua de calçada que nos separa e estaques perante mim, à espera que te diga o que tanto te quero dizer.

27 maio 2007

20 maio 2007

17 maio 2007

Amanhã recomeço o part-time...

... e é assim que me sinto quando trabalho:

14 maio 2007

#4

O som começa a fazer sentido. Lentamente, torna-se distinto: é o som de ondas.
O quanto a dor que a água fria lhe provoca teima em despertá-la.
Abre os olhos, e, por algum tempo, a luz é-lhe insuportável, precisa de algum tempo para se habituar à claridade. Por fim, vê-se numa praia.
Levanta-se da água: o frio a infectar-lhe os ossos, a rasgar-lhe os pés.
Passa as mãos pela cara, esfrega-a; despacha-as pelo cabelo.

Tenta concentrar-se. Nada faz sentido. Uma praia? Como?
Pensa, insiste: é difícil concentrar-se, a mente geme.
É então que uma sombra se apodera dos sentidos. A dúvida cresce, transforma-se em medo, o medo pinta-se de pânico. É difícil respirar, e o pouco fôlego que se apressa queima-lhe os pulmões.
Perde o controlo das lágrimas, deixa-se cair na areia.

A maresia impregnada na pele, as ondas que lhe lavam o vestido, o sabor quente do sol, a boca áspera do sal: nada disso existe agora.
Nada importa neste preciso momento, quando não consegue dar resposta ao que lhe foge pela voz:
- Quem sou eu…?

12 maio 2007

#3 - Oito Palavras

- Quero-te.
- Desejo-te.
- Casa comigo.
- Sou teu.
Felizes.
Juntos.

11 maio 2007

#2 - C(s)em Palavras

- Está tudo perfeito. Perfeito DEMAIS.
Sorris. Sentes-te vitoriosa, e conseguiste.
– Por vezes sinto-me impelido a dizer-te o que não posso.
Desafio-te, mas não corro perigo.
- O que não me podes dizer?
Ripostas. Arrisco.
- Posso... mas não devo.
Que faço eu? Tremo: arrisco demais.
– Tenho que manter... – vacilo– ...uma conduta. És minha amiga...
- Mas de que falas tu?
Atacas-me: sabes do que falo. Teimo:
- Prefiro não to contar.
Noto um nervoso miúdo em ti. Coro.
- Mas porquê? Porque começas estas conversas e não as acabas?
Encorajo-me: dir-to-ei agora, quando é tudo tão perfeito.
Inalo uma arfada forte de ar. Olho-te. Não consigo: tenho medo.

Tento escapar, tomo uma postura sábia e indiferente, e magoo-me:
- Por vezes temos que fazer o correcto, e esquecermos os nossos impulsos.
Olho para ti, e os teus olhos, mesmo antes de se fixarem nas tuas mãos, dizem-me tudo.
- Se não és honesto contigo mentes-me. - murmuras.
Perdi.

Respiro.
Não tenho coragem para te dizer: estás certa.
Respiro.
Tens razão.
Quero-te.

Heart-Shapped Glasses (When the Heart Guide the Hand)

Primeiro single do Eat Me Drink Me.